Quem me dera…
... ter uma humilde vivenda no meio de um prado. Nesse prado, uma árvore enorme e forte com um baloiço construído à mão pendurado a um dos ramos. Nessa árvore, uma casa da árvore onde conseguisse ver um lago enorme, ao qual pudesse ter acesso. Nesse lago, uma canoa que eu pudesse guiar a qualquer hora do dia.
... ter alguém com quem pudesse partilhar esse prado de sonho: momentos, fotografias, filmagens, olhares, palavras. Deitados na relva a olhar o céu estrelado; remando no lago de manhã a ver o nascer do sol; andar de baloiço até ao pôr-do-sol; fazer bonecos com as sombras das nossas mãos progectadas no tecto da casa da árvore; sentados à beira do lago a rir... sim, podia ser só a rir.
Tenho medo…
… do escuro, embora me vista todos os dias com qualquer coisa preta ou cores escuras e secas. A minha roupa, consigo vê-la na luz, mas, no escuro, nem a roupa mais flurescente me deixa ver o que se passa à minha volta.
… da solidão, apesar de às vezes preferir ter a casa só para mim ou trancar-me no quarto a ouvir música. É nesses momentos que eu faço barulho sem ter de me preocupar com as outras pessoas que estão em casa. É nesses momentos que me sinto melhor acompanhada que nunca.
… de pesadelos, que me façam acordar à noite e não me deixam adormecer outra vez, ou parar de pensar, ou passar um dia descansada. Parece que só os sonhos maus se concretizam e me seguem até à vida real.
… de aranhas, com oito patas bicudas e compridas, tão rápidas que nem o olhar as acompanha, com as teias que lhes permitem saltar de um lado para o outro.
… do futuro. Aquela vida que ainda está para vir, tão distante e desconhecida, assustadora até. Como num dia de nevoeiro que nos dificulta a visão do que está para vir.
… de mudanças radicais, que mudem tanto uma pessoa para pior, ou então para tão melhor que já não consiga aproximar-se do “eu” pior que ela. Que a faça pensar que eu sou tão má para ela e que a faço estagnar e sentir-se acomodada demais. Ou porque a minha presença liberta as piores lembranças de sempre.
como se me olhasse ao espelho.
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