De madrugada, os vidros dos carros estão congelados. Acordei tão cedo para nada. O céu ainda se encontra escuro como a noite e já há tanta gente acordada a fazer nada. Que aldeia tão velha, calma (demasiado calma), vazia (quase vazia, sem contar com os cães e os velhinhos que vão à igreja mesmo ao lado da casa da minha tia a um funeral). Não sei o que os meus priminhos vêm fazer aqui. Isto só tem festas pimba para velhinhos, campos cultivados por velhinhos, igrejas onde os velhinhos vão, bancos na rua cheios de velhinhos... E, no entanto, acordam com vontade para fazer tudo e mais alguma coisa. Que ingénuos... Ao contrário deles, acordo com tarefas a fazer (tarefas que nem em minha casa faço mas que tenho que fazer na casa dos outros). Faço a cama dos priminhos; ponho a mesa para o pequeno-almoço com o pacote de leite, todo o tipo de pão (Bimbo, bolas, pão de forma, croissants, integral), chocolate para o leite e para o pão, manteiga, chávenas de leite e de chá, cereais, tigelas para cereais, açúcar, doce, queijo, fiambre, chouriço e tudo o mais. Depois vou cuidar de mim. Visto-me, lavo os dentes, trato do cabelo, enquanto os outros vão tomar o pequeno-almoço. O cheiro a torradas e chá já chega ao quarto do primeiro andar, onde eu me encontro. Finalmente desço para comer. Na mesa o meu irmão prepara-se para se leventar e ir ver televisão só com os quatro canais portugueses. A mesa que eu tinha preparado tão bem encontrava-se agora com restos de pão estragado e chávenas de leite não acabado. Eu satisfaço o meu apetite com cereais. Acabo de comer e levanto a mesa. Os phones que ainda não tinham saído dos meus ouvidos davam-me música que acompanhava perfeitamente os meus movimentos (lentos e aborrecidos). Os meus primos vão andar de bicicleta para a rua. Boa, mais uma tarefa. Vigiar os meus primos enquanto a minha tia e a minha mãe vão à mercearia... Finalmente! O meu primo caiu e agora temos de ir para dentro e tratar da ferida, coitadinho. Levo-o ao colo e o seu choro bastante alto quase rompe os meus tímpanos. Mas o meu irmão também consegue ser simpático e vai tratar dele enquanto eu volto a pôr a mesa, mas, agora, para o almoço. Elas ainda não chegaram e eu vou para o primeiro andar ver as belíssimas paisagens da janela de céu cinzento, árvores descobertas e folhas cor-de-laranja, encarnadas e castanhas no chão. Por momentos vejo-as a voltarem com sacos e, passado algum tempo, o almoço já estava pronto. Desligo o mp4 e desço. O almoço decorre bastante quentinho e barulhento com os meus tios e pais a conversar e os meus primos a fazerem a barafunda deles.
E a minha mãe acorda-me.
-Queres ir ao Norte?
- NÃO!!! - respondo.
amei!
ResponderEliminaraté te imaginei mesmo a dizer esse teu "NÃO!!!" e ri-me com ele.
no alentejo também é só velhinhos. tarefas é que nem uma, daí nunca haver nada para fazer e eu fartar-me com isso.
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